sábado, 23 de maio de 2009

Hoje estou feliz pelo fluir da vida...

Esses dias estive na companhia do mar,
Com a água azul e o infinito.
Também pude voar e dancei muito em contato com ar.
O fogo se ascendeu em mim como nunca, e ao mesmo tempo como sempre.
Senti cheiro de terra molhada e isso alegrou meus pulmões,
Me fazendo viajar em paisagens passadas e ao mesmo tempo tão desconhecidas...
Um dia antes de chegar ao alto do morro,
O Cristo chorou sobre nossas cabeças, e chorou muito...
Naquela manhã eu dispensei meu guarda-chuva para minha bolsa ficar mais leve.
Na mesma noite, um homem sem ter conciência do que fazia, cantou nos meus ouvidos e me fez lembrar que o poeta continua vivo.
Na outra noite, ou seria na mesma? Borboletas voaram sobre a minha cabeça, eram muitas as borboletas, de muitas cores e tamanhos.
Se enroscaram no meu cabelo, algumas penetram no turbilhão dos meus pensamentos, e dançaram nos meus desejos mais profundos.
Esses dias morei numa casinha de boneca , com uma gata que me esperava na janela.

Renata Laurentino
23 de maio de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ILUSTRAÇÃO: SERGIO ANTUNES

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sou, só, minha...

Estou nua,
Mas não sua.
Sou daqueles, que me tem no imaginário.
Sou, só, minha.
E apenas sou.

Sou a solidão que dói, e isso achei que fosse coisa de poesia.
Dói o sonho desmoronando na pele, nas veias.
Dói a magreza do meu corpo.
Dói a falta de fome.
Dói o peso sobre os ombros.
Dói o sono profundo.

O silêncio, dói.
O espaço vazio, dói.
A água quente do chuveiro, dói.
O prato cheio de comida, dói.
O conforto da cama, dói.

Estou crua,
Um pouco suja.
Sou daqueles, que não me enxergam.
Sou, só, minha
E apenas sou.

Renata Laurentino
( verão de 2008)

Foto:Vitor Vieira

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Matriarca


Os olhos escondem segredos,
Os ouvidos sempre atentos,
A boca revela poucas palavras,
As perguntas ocupam os silêncios.

Espero o momento em que falaremos dela.
Sobre os medos, os sonhos, os desejos.

A noite, no escuro do quarto iluminado por velas,
Posso ouvir de longe , as conversas com o vento,
As rezas com os santos,
E o arrastar dos pés descalços.

Na luz do dia, ela observa , escuta ... Se cala.
As velas continuam acesas diante do sol.
A casa florida e seu olhar inesquecivel.
Nas conversas em sigilo, sou eu que falo dos meus conflitos,
Da última vez , quase consegui ler seus pensamentos.

Sua fé, rege o caminho.
Ela é a guia.
Enxerga os dias que nos esperam, sem medo, sem dúvida.

E eu a observo, com plena admiração.
Com devoção.

Renata Laurentino.
Inicio: 5 de fevereiro de 2008.
Termino: 16 de setembro de 2008.
Ilustração:Irana Douer

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Para Lú e Sua Parceira de Jornada


As unhas vermelhas seguram a taça, que embriaga e faz deslizar as palavras.
O contorcer dos quadris encanta os que, sem querer, se fixam naquela figura.
O sorriso escancarado de mulher livre, constrange e desafia certos olhares.
Os olhos, se assemelham aos daquela que nos chama para o mar.
As caricias, nos longos cabelos, revelam os ombros nus.
As mãos, só tocam os escolhidos.
As saias, diversas saias, escondem as pernas que dançam sem intervalo.

Gira , moça.
Gira...
Gira , Pomba.
Gira...

Ao redor os trabalhadores, velhos e sujos.
Que se encarregam dos restos e dos podres que a humanidade não recicla.
Se curvam diante da Diva, e não resistem aos seus gestos hipnóticos.
Com seus corpos desgastados e curvados, não alcançam os negros olhos.
A diferença de suas alturas, faz ela se manter intacta diante deles.
E diante de mim.


Renata Laurentino
26 de Julho de 2008.

(Agradecida por compartilhar essa imagem/energia que me inspira e me transmuta).
Ilustração:Irana Douer

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Hoje

Os meus olhos estão pesados e minhas costas se curvam.
As imagens de antes fugiram diante de mim.
Escrever sobre o quê?
Sobre mim? Sobre você?
Sobre o que vivo? Ou sobre o que vejo?
Em épocas de ovulação o olhar muda, as coisas pesam.

Onde foram parar as pilhas?
Cansei de arrumar e organizar.
Não quero mais tralhas, preciso me desapegar de coisas e me apegar em corpos.

Alguma coisa de muito estranho aconteceu com minhas pupilas.
Não se incomode com meus óculos escuros.
Eu sujei minhas mãos e não consigo limpá-las, por isso ando usando luvas.
As botas estão fazendo minha unha do pé encravar...Mas eu amo botas!

Ontem eu bebi um pouco demais.
Não, não foi demais.
Foi o suficiente para me sentir livre.
Dancei com minhas palavras a noite inteira.
Meu sorriso me acompanhou fielmente.
E eu estava lá, de botas e luvas.

Hoje me despeço mais uma vez.
Não consigo ficar, quase nunca consigo ficar.
Tenho saudades, mas não quero mais.
Dispensei meu guarda-chuva,
Assim minha bolsa fica mais leve.

No rádio tocou a música,
Não sou mais aquela música.

O livro que eu estava lendo acabou,
Me senti muito sozinha.

Amanhã eu posso acordar tarde,
Posso andar no parque,
Comprar roupas no brechó,
Fazer brigadeiro,
Marcar o encontro.
Mas não sei o que terei vontade de fazer amanhã.

Renata Laurentino
06/06/2008

Foto: Zé Rubens

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O sabor das coisas

Em que lugar encontra-se o conforto?
Não, não é conforto a palavra.

Onde foram parar os olhares , eles existiram um dia ?
Ou pensei ter visto em olhos fundos cheios de segredos.
Não lembro do último olhar profundo.
Não lembro de olhares de minutos.
Não lembro de olhares de desejo.
Não lembro de olhares com lágrimas de tanta emoção.
Pra que olhos bonitos e exóticos , se não posso sonhar com as supresas que eles poderiam me oferecer.
Será que ainda podem supreender?
Será que virão surpresas quando os olhares voltarem?
Eles voltam quando vão embora?
Ou vão embora ,por que não existem mais?
Eles morrem antes dos olhos?

Sobre a ausência,
Me pergunto se sinto falta do que tive,
Ou do que sonhei em ter.
O gosto muda,
Mas tem sabores que não mudam, independem do tempo.
Gosto de provar o que nunca provei.
Gosto de provar o que não vejo a muito tempo.
A forma e gosto mudam, se transformam.
O tempo muda as coisas.
Me atrai as mudanças , as transformações.
As confusões.
Não é conforto a palavra.

O tempo.
Não culpo o tempo .
A dor no peito é grande,
Nenhum grito faz passar.
Então vem o sono.
O tempo passa.
As coisas mudam.

Preciso provar novamente.
Preciso saber se ainda gosto,
Se ainda quero ,
Se ainda posso,
Se ainda aguento.
Renata Laurentino
25.12.2007
Ilustração:Irana Douer

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Terra Encantada dos Gigantes...

Em algum lugar bem longe daqui, eu vivi numa terra encantada e distante, cheia de gigantes.
Um deles me disse que ser gigante não era fácil.
-Claro que eu não acreditei...
Os gigantes eram livres, podiam pegar ônibus sozinhos, andavam de bicicleta muito além da esquina da minha casinha.
- “Que era feita de muito esmero na rua dos bobos nº 0”.
Naquele mundo encantado, um dia um dos gigantes me levou para ver um menino de madeira.
-Meu Deus, o que era aquilo!!! Tinha um gato gigante na caixa preta e um menino de madeira que tinha um nariz que crescia.
- Eu vi o nariz crescendo. Eu acreditei!
Depois, num dia de Natal, um líquido vermelho escorreu pelas minhas pernas... Eu fiquei feliz, tive um pouco de medo...
- Era sangue de verdade!
Um gigante disse que ser princesa não era fácil.
-Claro que eu não acreditei...
Algum tempo depois, eu estava dentro da caixa preta. Eu fiquei tão feliz, que comecei a sonhar em morar dentro dela.
Alguém me disse que a caixa preta não era fácil.
-Claro que eu não acreditei...
Naquela terra também se falava de príncipes encantados. Um dia eu encontrei um. Não era loiro e alto, o cavalo dele não era branco e ele não sabia dançar nos bailes dos castelos.
- Mas eu amei o príncipe!
Alguém me disse que ter uma casinha de chocolate não é fácil.
- Claro que eu não acreditei...

Eu queria continuar acreditando na trilha de farelos, nas cestas de doces, na deliciosa casa de guloseimas, na incrível fábrica de chocolates, nas lagoas azuis, no pé de feijão, nos Ets...

Só que agora eu sou um gigante, que anda no ônibus apertado, que não tem bicicleta, que batalha para continuar morando na caixa preta. Às vezes vejo meu nariz crescendo e tenho medo do sangue não escorrer pelas minhas pernas.

Perdi o mapa da terra encantada. Ele foi ficando pequeno... pequeno...
- Ser gigante não é fácil...

Renata Laurentino.
20/07/07
Ilustração: Renata L. (no Paint )

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Caminhando

A gravidade não sustenta os ombros no lugar
Eles pendem ultrapassando o limite da cabeça.

O peito se acomoda dentro do espaço côncavo que se forma,
As costas levadas pelos movimentos, se curvam
Permitindo que os olhos observem cada detalhe dos pés.
Os joelhos estão sempre flexionados, cansados.

Os cabelos embaraçados escondem o pescoço longo que corre na frente,
O ar gelado entra e sai pelo nariz que sofre com o frio,
As pernas só não vão mais rápidas do que os pensamentos.

Ah! Os pensamentos...

Os dentes rasgam o que sobrou da boca rachada.
E os dedos cutucam tudo o que surge na pele do rosto.

...Nos pensamentos
A música que não sai da cabeça
A frase que questiona
O doce de chocolate
A cena do teste.

O encontro desmarcado
A saudade da terra
O tamanho do espaço
Os novos desejos
Os amores
As despedidas

A idéia da morte
O batismo
O choro compulsivo

Os olhos se fixam na figura que espera.
Um cumprimento.
Não se ouve nenhuma palavra.

Renata Laurentino.
25 de junho de 2007

Ilustração: Marcos Garuti

domingo, 3 de junho de 2007

Naquela noite...Um olhar...Um presente...


Foto: Renata Laurentino

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O Grito.


O grito invade a cama.
Não está mais quente, não tem mais sono.
(Dor)
A mulher encara o grito.
O grito encara a dor.
A mulher encara o homem.
O homem encara a mãe.
A mãe encara a menina.
A menina encara o monstro.

Ela-Mulher-Menina-Mãe diante do Ele-grito-homem-monstro.
(Medo)
Ele não desiste
Ela resiste.
O grito é insistente
A dor incompetente.
(Raiva)
A palavra dita, não é esquecida!
O Futuro a Deus pertence!
(Futuro? A Deus?)
Não se pode mudar o passado!
(Ah! O passado...).
Não preciso de ninguém!
(Não?)
O final tem que se resolver agora!
(Não tem fim).

Renata Laurentino
28 de maio de 2007.
Foto: Zé Rubens

Ingênua



Com sorriso escancarado
Com palavra dissonante
Com gesto desastrado
Com olhar penetrante

Observando sem truculência
Correspondendo sem indecência
Vestindo rubro sem inocência

Ingenuamente nua
Ingenuamente crua.


Renata Laurentino
27/03/2007
Foto: Zé Rubens